
“Cantei,
cantei / Jamais cantei tão lindo assim”, e
só podia ser nos bastidores dos 79 anos de Cauby
Peixoto
Por
Nyldo Moreira
Hoje
a música popular brasileira comemora mais um de seus
aniversários, Cauby Peixoto completa
79 anos e continua sendo um ídolo, principalmente
para aqueles que acompanham sua carreira desde os seus primeiros
sucessos. Cauby, de família de artistas, já
foi considerado o Elvis Presley brasileiro pelas revistas
americanas Time and Life, além de ter sido homenageado
por um dos mais importantes e hoje saudosos prêmios
da música, o Prêmio Sharp, entregue por sua
parceira de tantos shows Ângela Maria que em 1982
gravou contigo o LP “Ângela e Cauby”.
Desde a década de 40 ele foi um dos homens com a
voz mais marcante das rádios, da TV e dos palcos
sempre no mesmo estilo - a banda, sua cadeira e uma mesinha
forrada de renda e enfeitada com um vaso de flores –
e o público, na maioria das vezes, próximos
a sua idade, o que não diz que Cauby também
não soa aos ouvidos mais jovens.
Em
1956 muitos fãs foram privilegiados com um LP que
trazia “Blue Gardenia” e ainda outros sucessos
que o carimbaram como Professor, que assim ficou conhecido
entre os músicos. Dentre famosos sucessos da década
de 40 destacam-se “Canção do rouxinol”,
“O show vai começar”, “Conceição”
e “I Go”, nada mais nada menos que “Maracangalha”,
do baiano Dorival Caymmi, gravado em 1959 numa temporada
de quatorze meses nos EUA, quando ele usava o nome artístico
de Ron Coby.
Cauby
Peixoto tem a pinta daqueles cantores boêmios de boates
e barzinhos, e assim ele é, esconde e ao mesmo tempo
revela em seus cabelos encaracolados uma longa história
típica de um cantor brasileiro, era pobre e hoje
posa dignamente como um príncipe trajado de brilhosos
blazers. Imaginem que um jovem, sem nem ainda conhecer seus
20 anos de idade, se mete a cantar ao lado de um de seus
ídolos uma famosa música de outro ídolo.
Foi assim na última segunda-feira no Bar Brahma,
em São Paulo, na entrada de Cauby ao palco resolvi
soltar a voz ao seu lado cantando “Desabafo”,
canção que compõe o mais novo álbum
do príncipe da mpb homenageando o Rei em “Cauby
interpreta Roberto”. Não acho tão inusitado
assim que eu conheça e acompanhe sua trajetória,
pois quem nunca ouviu seus avós, ou seus pais cantando
e ouvindo Cauby.
Composições
especiais para Cauby confeitaram o bolo de seus 25 anos
de carreira, Caetano com “Cauby, Cauby”, Chico
Buarque pai de uma das mais lindas canções
interpretadas por Cauby “Bastidores”, além
de Tom Jobim que lhe entregou “Oficina” e Roberto
e Erasmo “Brigas de Amor”. Ele mostra-se um
cantor que se equilibra elegantemente na linha do tempo,
com 78 discos de rpm, 6 LPs de 10 polegadas e 26 de 12 polegadas
e já recentemente, considerando a rapidez com que
o tempo passa, 4 CDs. O mais recente deles, já citado
aqui, em que doze músicas de Roberto Carlos passam
pela aveludada voz de Cauby, ainda exala o cheiro de novo
em notas de piano e acordes de violino, violoncelo e violão,
e o meu com um autógrafo sobre seu paletó
cinza e prata ilustrando a capa do cd. O melhor deste álbum
é a nova roupagem dada a “Desabafo”,
que com Cauby tem a finesse do tango. Mesmo assim, revirando
sua discografia, nenhuma música foi tão famosa
em seu palco como a antiga e eterna “Conceição”.
Não
sei com quais palavras desejar parabéns a Cauby,
até porque “Parabéns a você”
não deve ser sua maior especialidade, prefiro cantar
“Bastidores”, que lhe cabe melhor, quem sabe
num próximo show. Além de intitular a canção
de Chico este foi o melhor e mais original nome para o livro
que discorre os 50 anos de sua mpb e samba-canção,
Rodrigo Faour, autor da obra nos mostra Cauby por trás
e após os bastidores, lançado em 2001 deve
fazer parte de nossa biblioteca.
Quem
ainda não conhece Cauby Peixoto tão de perto
vale a pena emocionar-se e certamente o emocionar aplaudindo
seu poliglota repertório todas as segundas-feiras
no Bar Brahma, em São Paulo.